quinta-feira, 27 de maio de 2010

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Carradas de palavras são lançadas minutamente em folhas, objectos, em livros. e toda a gente escreve. Os escritores vivem do pó. Do pó que ganham nos ossos por ninguém os conhecer e por apodrecerem junto com as máquinas de escrever, como a carrada de livros que deixam escritos para trás, em estantes, ao abandono. E todos nós escrevemos.
Mas ninguém escreve, apenas os escritores.
A escrita é uma tarefa ercúlia e ridícula. Contudo, qualquer um deixa história escrita para trás. Um livro, um capítulo, um texto ou até uma palavra. Eu, deixo um número.

sábado, 15 de maio de 2010

Um Australopiteco em New York

Uma vez tive sono. Passei vinte e quatro horas a matutar no mesmo enquanto caminhava vagarosamente por ruas abandonadas pelos fantasmas do passado. Não avistei nenhuma cama e adormeci ali mesmo. A humidade entranhava-se nos meus ossos mas o cansaço consumia as minhas pálpebras e abatia-se sobre as minhas forças. Fiquei ali. Paralisado. Estava perdido. Filosoficamente não sabia onde me encontrava mas sei que não dormi mais de três horas até ter sido confrontado por um ser arruaceiro e de olhar sisudo. Perguntou-me se tinha dinheiro. Eu tinha vontade de lhe bater. Já há algumas horas que não dormia e aquela pergunta era mesmo asinina. Agarrei nas minhas pernas e fiz-me à estrada, ignorando-o. Cinco minutos depois senti os ossos a deteriorarem-se. Tive de ir ao Mc Donald’s pedir dois chicken burguer’s, três Coca-Colas e dois pacotes de batatas fritas, com as minhas roupas sórdidas. Quando o fiz, perguntaram-me novamente se tinha dinheiro. Fiquei mesmo agoniado, e levando a mão ao bolso tirei trinta dólares e apeteceu-me aniquilar todos os donos daqueles olhares facínoras. Pedi um saco e fui para um beco. Sabia agora onde estava. Encontrava-me numa cidade porque tinha vindo do Mc Donalds, e os Mc Donalds só habitam cidades onde povoam pessoas. Fui ao Centro Comercial. Carecia de um cobertor e de umas roupas novas, estava submerso de lixo. Vi tanta mulher num dia só. Fiquei cheio de tusa. Entrei numa loja à mão e agarrei em meia dúzia de roupas para homem. Fui para os vestiários cobertos de verde-esmeralda e baixei-me. Fiquei hirto. Vi duas pernas de mulher a brilharem por sobre os lençóis que cobriam quem experimentava roupa. Depois, alguém me abordou. Agarrei no que tinha na mão e entrei num vestiário. A imagem do espelho era repelente, arrogante e distorcida, já à muito que me conhecia, e aquele não era eu. Estava coberto de sono.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Somos feitos de papel. É ilusório, irremediável. Até a minha avó é feita de papel enroscado por mãos esmagadoras e não assíduas. Até as cadeiras que atravancam o caminho e nos deixam abandalhar numa sala de aula são feitas de papel. É efusivo, o efeito que o papel exibe, uma grandiosidade extremamente cruel, e até as palavras são escritas no papel. É demente o modo como somos manipulados, esbanjados e humilhados no papel, mas o que era o mundo sem este elemento grotesco e vagabundo? Absolutamente nada! Ou então pequenos fragmentos num supermassivo buraco negro. Uma cave. Somos feitos de surrealismo, de sonhos ambíguos, esquizofrénicos, irónicos e inexactos. Quem falou em papel?