segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Margarete Sousa

    A história da Margarete Sousa nem é fácil nem difícil de explicar. Até ganha uma simplicidade tamanha se não me colocar com paleios e palavras menos comuns às quais tenho a constante necessidade de recorrer, visto que, exprimir-me por palavras normais deixa cá dentro muito por dizer, apesar do vazia existencial.
    Passemos à génese. Desde criança na primária me lembro das minhas grandes dificuldades de socialização. Nunca fui uma rapariga dada e brincava a maior parte do tempo com a minha solidão. Da infância para a adolescência foi um salto desfocado, lembrar-me de pormenores sobre a minha existência fica apenas na memória de quem me conheceu. Depois é tudo mais fácil. A necessidade de conhecer pessoas novas, de outras idades (preferencialmente mais velhas), com outras culturas, escrever, criar, todo este mundo tamanho começou a possuir a minha cabeça e a manter-me viva de uma forma precoce. Experimentar tudo, andar descalça pela estrada, dançar na varanda, colocar a cabeça submersa em água, tudo servia para um escape da rotina, para uma experimentação de novas sensações, fossem quais fossem, desde que fossem novas. Assim nasceu a Margarete, tinha eu 14 anos.
    Nem sabia bem do que se tratava, para mim nunca foi um heterónimo, nunca assinei nada no nome de Margarete. Simplesmente ela era o meu escape da realidade, eu queria sair de mim e ser outra pessoa, ter outras experiências explorar o meu inconsciente e viver nele.
    A Margarete é assim a minha tentativa frustrada de ser livre noutro mundo. A minha tentativa anulada de ser aceite e um ser social. Nunca resultou.
    Entretanto apaguei-a da minha memória e criei outra forma de fugir à realidade, num isolamento constante ao qual sinto a necessidade permanente de lhe estar conectada, tendo de certo modo comprometido muitas relações, deturpando-as.
    Agora que de certo modo abandonei essa incomunicação por volta de seis meses, voltei a ser um ser frustrado socialmente, psicologicamente e fisicamente. Não me conheço mais e sinto-me sufocada dentro deste mudo insano. Sinto-me exposta e nua aos olhares de quem mal me conhece, e nem eu própria me conheço. Agora, com 17 anos, vejo com nitidez que os meus problemas de socialização devem-se à minha dificuldade de manter as emoções constantes: elas são tão bruscas que consigo ter dentro de mim centenas de sentimentos, centenas de sensações, centenas de pensamentos e descoordenar tudo, ficando um corpo com uma personalidade indefinível dentro deste. É por isso que não me compreendo nem deixo que me compreendam. Estar muito tempo num mesmo sítio com as mesmas pessoas torna-se tão fatigante que eu me fatigo e quebro tudo. A Margarete era quem me tirava estas sensações de fatiga era ela que me dava um escape diário para o paraíso e acabou também ela por ser afastada do meu eu.
    Onde andas Margarete?
    Tenho Saudades.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

D I T O

Tomás Frias (JUBA) e Margarida Vargas são os D I T O, um daqueles projetos musicais curiosos que nasce de uma componente afetiva e vem trazer outra relação desta vez 'banda-público'. O giro aqui, é que este projeto não é uma "normalização" mas uma inovação artística e criativa. A música aqui é feita com paixão, prazer e mostra lados intimistas que num projeto a solo seriam difíceis ou talvez impossíveis de encontrar. A somar a isto, não há a pressão de fazer música para um álbum ou EP, o que faz com que o tempo de espera por material novo seja quase inexistente e acima de tudo um regalo! Com uma dominância do eletrónico e talvez uma co-dominância no ambiente, D I T O trazem já uma discografia dividida em várias faixas onde explorar é a palavra chave para descobrir várias sensações, dimensões pessoais, viagens intra/extra mentais, mas acima de tudo uma paixão, uma nova paixão musical. Experimentamos isto em 'B', 'Holly' mas é com 'Tiempo' e 'Brightside' que esta trip se torna poderosamente envolvente! A prova de que em dois as coisas se tornam afincadamente geniais.

Roulet

[Portuguese Music] Profissionalismo, Talento, Empenho, Originalidade, Genialidade, enfim todas as palavras eméritas seriam insuficientes por si para classificar o dom de Tiago Trole, o responsável pelo projeto Roulet. Tudo nasceu em 2005 por influência de um amigo DJ sobre o nome genuíno. Sendo tudo muito recente e ainda "muito básico" todo o trabalhado nesse ano e no seguinte ficaram reservados com o Tiago, não estando disponíveis. Em 2007 nasceu Roulet, o trocadilho de Trole – o T no fim (roleT) e um acréscimo de U (roUlet), tudo com a ajuda de um amigo produtor. Curiosamente até aqui a biografia parece uma banalização da vida de qualquer um, mas o curioso vem a partir de 2009 (na cooperação com Buraka Som Sistema) ora comprovemos na belíssima discografia "à lá TY Segall":
2009- Buraka Som Sistema- Kurum (Roulet Remix)_ Fabriclive 49
2010- Roulet- Kitámanda EP _ Enchufada
2010- Roulet- Kitámanda - E-SPAM 001 _ Enchufada
2010- Bert on Beats- Alemão EP (Roulet Remix) _ Man Recordings
2011- Orelha Negra Mixtape- Orelha (Roulet Bootleg)
2011- Boogaloo- La Digue EP- Boogaloo-Wooba (Roulet Remix)_ Big'N'Hairy
2011- NaZaretH- Nizariyyah EP - (Roulet Remix) (FREE)
2011- Aegyptus - Coligação entre NaZaretH e Roulet (FREE)
2012- Roulet- YEAH EP (FREE)
2012- Lisbon Bass- Roulet- Macumba _ Adam And Liza Music
2012- NaZaretH- Crusaders (Roulet Remix) (FREE)
2012- NaZareth & Roulet- Armada II (FREE)
2013- Roulet- Home Again Album (FREE)
E isto não é tudo, há muitas músicas soltas nos vários Soundclouds do artista, porque convém afirmar que este rapaz é um jovem COMPLETO.
Explorando pertinazmente 'Home Again' adquirimos um amor à primeira audição bastando para isso tocar no play de 'Rise And Shine' num Lounge Chillwave que nos prende nos 62 segundos de duração. Este stream começa assim a tornar-se numa relação íntima em 'I Can Make This' sendo fortalecida com a 'Sunny Day' onde são usados teclados para uma paixão mais profunda que é repetida em 'She Is'. Com 'Knowing You' e 'Simples Olhar', numa manipulação de correntes eléctricas, obtemos o tempo de recuperação para enamorar a belíssima 'Angel'. 'Uva'- uma das melhores canções que figuram o álbum- traz um ambiente meio lo-fi, que logo adquire distorções vocais em 'Here For You'. 'That Afternoon' precede 'Night', como podemos visualizar quotidianamente, sendo esta última maravilhosamente calma e ténue mas compacta. 'Odivelas' encerra assim o álbum com o efeito sobremesa: "tão bom, quero repetir!". E sim, podemos repetir porque para além de delicioso é gratuito!

Homem em Catarse

Tudo começa com um primeiro trabalho. Este tem a sua génese nas margens do rio Cávado entre Barcelos e Esposende no ano de 2012 algures na mente de um Homem em CatarseEste primeiro trabalho, um EP Homónimo iniciado com 'Navarra', - música onde "As palavras estão nas cordas da guitarra e a mensagem espalhada num espectro ambiental" – vem transmitir uma mensagem brutal através de vocábulos e "acordes". 'Pena d'água', a segunda música, traz uma sonoridade mais primaveril e extraordinariamente bem trabalhada, o que é importante denotar. Contudo, é em 'Évora'- numa parceria com Gobi Bear - que saboreamos um indie folk singelo e bem português em não mais de três minutos. 'Pois! Não sei' faz de mote a uma sentimental mistura de acordes entre os dedos de um homem na guitarra e uma alma de artista na criação: nasce assim: '(não és) Açor' que é talvez a música 10 do EP, com a melodia mais envolvente e espantosamente incrível para viajar! Tudo a partir do minuto 02.20 até ao final: um instrumental de 7 minutos com um doce sabor a desejar mais. 'Catarina' conta a história de alguém que tem tanto por dizer e palavra nenhuma que saia, tudo mostrado nas cordas da guitarra que terminam em 'Novo Começo' onde o Gobi Bear vem ajudar a clarificar os termos e colocar à deriva tudo aquilo que é o tempo: uma instabilidade. A mensagem foi toda ela transmitida em sete gloriosas canções que só entre as margens do rio e talvez nas margens imaginárias do pensamento são perceptíveis para viajar e criar mais e mais interpretações diferentes: uma mensagem para levar junto ao coração, que, para um primeiro trabalho, é mesmo uma catarse em si. Uma purificação muito bem conseguida!

Flying Cages

Já falamos deles previamente mas visto que DIA 22 DE FEVEREIRO vão dar um concerto no HARD CLUB, PORTO, vamos dizer umas palavras sublimes. Zé Maria Costa, Francisco Frutuoso, Rui Pedro Martins e Bernardo Franco são os "putos" de Coimbra (que nós há uns tempos sabíamos as idades!) responsáveis pelo projeto Flying Cages. Com uma voz marcante, (não se assustem não é Alex Turner, mas sim o Zé!) e material bom e de qualidade para um EP, 'Teach Me How To Dance' leva-nos a aprender que as músicas destes moços são para ouvir no volume máximo, cantar e sobretudo dançar. Assim somos levados para 'To Soon It Got Late' e 'Nothing But Hill' para cantar e fazer danças à la Thom Yorke e com pinta! É na vibração das cordas em 'Benvenuti' - que rapidamente se transformam em sinais elétricos - que somos completamente possuídos pela magnificência de "mestres" a tocarem, uma música de ir ao céu. 'Under Dress' é o single que recomendamos para os amantes das antigas sonoridades dos The Strokes, algo muito perspicaz e puramente encantador! Sem nos esquecermos de referir a bonita 'Rollercoasters', temos de admitir que é no minuto UM da 'Between Commas' que entramos noutro mundo, um mundo profissional que nascido no verão de 2011 está já a criar nós de ansiedade para o verão de 2013, onde esperamos algo editado! Aqui em baixo, para quem não conhece ainda, (o que duvidamos) fica o soundcloud da banda com quatro singles para descarregar gratuitamente. As outras referidas é fazer malas e ouvi-las no Hard Club, Porto dia 22 ou então invadir-lhes a garagem por Coimbra! (;

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Posse

Não, não conspurco mentes de corações alheios.
Toco-lhes momentânea e exclusivamente com o olhar.
A ilusória realidade? Essa sim afago-a
Como se de uma ilustre criança se tratasse.
E faço tudo isto num sarcasmo de reciprocidade.

Esta apática solidão rasga-me, corrói-me, tritura-me
E reduz-me a pó em plena presença da minha efémera felicidade.

Não, não pretendo vender os meus infames medos
Muito menos possuí-los dentro de mim, como quem possui uma alma.
Muito menos sentir a necessidade de estar ciente que os possuo.
Dentro deste ser confuso.
Não pretendo desvanecer ilustres esquemas de projetos felizardos, mas achar-lhes a terminação.
Quero ter em mim a irresponsabilidade entusiasta de dormir à tarde e ser livre de ficar acordada à noite, ou dormir sobre olhos abertos.

Não, não me abandonem
Incutam-me apenas os sonhos
E deixei-me ser possuída, possuída pelo isolamento.