segunda-feira, 11 de março de 2013

Escape


                
    Eram três da manhã. Três horas e vinte e dois minutos da manhã, com os seus segundos à mistura. O suor acometido das insónias centrava-se como uma força centípeda no corpo agora molhado de Quintela: Carlos de Almeida Quintela, em jeito de sensação paradoxal calor-humidade. Tudo se desenvolvia num mundo surreal ao presenciado pelos habitantes da vila Cama da Vaca. Tudo se resumia a uma ilusão experienciada pelo moço a fim de abstrair a solidão severamente sentida. Tudo se fortalecia quando o seu corpo se encontrava deitado, absorvendo todas as sensações possíveis, quando os olhos - fechados por uma falta de luminosidade – se cerravam no inconsciente para um desfoque do real.
    Luz.
    Num ímpeto Almeida Quintela houvera acordado. Pedaços de pó encontravam-se emaranhados nos livros encostados aos cantos do quarto, que serviam de intersecção entre as paredes que delimitavam a casa em divisões. O “branco” desvanecia nas formas dos objetos do quarto à medida que o sono abandonava aquele corpo, apenas necessitado de preencher o vazio existencial presente. Carlos estava acordado, lúcido e com o apetite aguçado.
    Pegara no maço de cigarros que se encontrava a estibordo da cama e acendera-o com o isqueiro da Bic que já apresentava sinais de velhice: falta de gás, falta da robusta chama, falta de outras tantas características que são alheias aos que não têm um curso de engenharia mecânica de isqueiros.
    Estava uma manhã culminada em água e as ruas encontravam-se preenchidas pela terra enlameada - um factor impeditivo para quem trabalhava no desemprego. Quintela agarrara nas pernas e lançara-as até à cozinha a fim de manter o metabolismo ativo. Num ímpeto um sol avassalador preencheu o céu entristecido por um cinzento remanescente e, fê-lo vestir-se com a finalidade de sair para caminhar na companhia da sua personalidade. Sim, o chão estava sórdido e difícil de manter os calcanhares assentes, mas a ideia de ser acarinhado pelo vento- tanto no corpo, como na mente- era completamente irresistível. A porta de casa fora fechada. Estava agora sobre passeio da Rua 31 de fevereiro e o vento começava a abraçá-lo, a emoldura-lo, a possuí-lo. Carlos estava prestes a atingir um êxtase sentimentalista. A viagem intra-cerebral iniciara ali e prolongar-se-ia até que a porta da casa se voltasse a abrir, desta vez para o dono entrar.
    O que se passara desde o fecho da porta até à sua abertura é completamente indescritível e só de possível experimentação pelas mentes deturpadas de uma realidade precisa. É algo de sobrenatural com formas de certo modo ajuizadas, de certa fisionomia, brejeiras.
    Noite Cerrada.
    A Porta fechara-se e Carlos de Almeida Quintela encontrara-se submerso pela sujidade presente em cada átomo de ar, em cada partícula da terra. Descalçara-se e, dentro da roupa de dormir, fora para a cama onde uma noite de insónias, sentimentos surreais e visões desfocadas se encontrava deitada para o acolher.